Crise – Oportunidade para o TMCD
Dr. Vítor Caldeirinha

 
Como é do conhecimento público, o volume das emissões de CO2 por unidade transportada tonelada-quilómetro pelos diversos modos de transporte encontra no transporte rodoviário a sua principal fonte a nível europeu, o que é mais grave quando a nível do transporte intra-comunitário este modo de transporte representa 46% de todas as toneladas-quilómetro efectuadas no transporte de cargas de todos os modos, com o mar a representar 37%.

Existindo hoje em dia uma grande preocupação com todas as questões ambientais e com a sustentabilidade dos transportes, o Livro Branco da Comissão europeia recentemente divulgado aponta para metas muito ambiciosas de redução do peso da rodovia nos transportes além dos 300 km de distância.

Foi anunciada a redução até 2030 de 30%, e até 2050 de 50%, do tráfego rodoviário além de 300 km, com transferência para o modo marítimo, fluvial e ferroviário, reservando para a rodovia o papel apenas nas pontas finais do transporte.

http://www.eea.europa.eu/data-and-maps/figures/specific-co2-emissions-per-tonne-1
Por outro lado, com a redução das importações portuguesas e as políticas de saída da crise que apontam para a necessidade urgente de se fomentar as exportações portuguesas, também para a Europa, - neste caso designado comércio com os parceiros europeus -, a rodovia tem vindo em 2011 a ter dificuldade em equilibrar os tráfegos de entrada e saída e ser competitiva em certos destinos europeus, o que não facilita a vida aos nossos exportadores.

Então que alternativas podem ser criadas? Sabemos ainda que existirão nos próximos anos fortes restrições ao investimento público, o que certamente não vai deixar de afectar o desenvolvimento da ferrovia na sua ligação à Europa em bitola europeia e a expansão dos portos. Apesar da euforia ou negação ainda existente, não deixaremos de ter que restringir fortemente a bolha de investimento público dos últimos anos. Estamos na fase de “return to normal” do ciclo das bolhas económicas de Rodrigue.
Ciclo das bolhas económicas de Rodrigue
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Stages_of_a_bubble.png
Assim, com as restrições do investimento público, a necessidade de tornar mais competitivas as exportações portuguesas para apoiar a recuperação mais rápida da economia e cumprir os objectivos europeus de mudança modal da estrada para modos de transporte de massa mais amigos do ambiente, não nos resta alternativa senão incentivar fortemente o transporte marítimo de curta distância. Ainda existe muita capacidade nos portos para este tipo de tráfego.

Trata-se de uma oportunidade única para o mar e para os portos portugueses, que num momento de forte crise económica podem ter um papel crescente e determinante na recuperação do País, reforçando a sua posição no mercado internacional de transporte, contribuindo para a sustentabilidade europeia dos transportes e do ambiente.

É de lembrar que, de acordo com Rodrigue, cada modo de transporte tem diferentes funções, sendo o transporte rodoviário mais eficiente para distâncias até 500 a 700 quilómetros, a ferrovia para distâncias até 1.500 quilómetros e o transporte marítimo é o mais eficiente para distâncias superiores.
Distribuição Modal Eficiente

http://people.hofstra.edu/geotrans/eng/ch3en/conc3en/transcost.html
O actual comércio português com a União Europeia situa-se nas 40,3 milhões de toneladas, ou seja nos 57,2 mil milhões de euros, dos quais 63% em volume e 82% em valor são realizados pela rodovia, 30% em volume ou 12% em valor pelo transporte marítimo e o restante pelo transporte aéreo e pela ferrovia.

O valor das cargas transportadas pela rodovia é de cerca de 1.800 euros por tonelada, enquanto pelo transporte marítimo é de 580 euros por tonelada e pelos restantes modos de transporte é de 1.100 euros por tonelada, o que mostra bem o tipo de carga que ainda é transportado por navio, de baixo valor acrescentado e matérias-primas.

Ou seja, nos próximos anos o transporte marítimo de curta distância, utilizando os terminais portuários existentes, que ainda possuem bastante folga e capacidade a nível nacional neste segmento, serão a melhor alternativa para exportar de forma eficiente e sustentável, devendo-se os portos e os armadores preparar a oferta para servir da melhor forma o mercado nacional e Europeu.

O País terá que olhar para o que existe, servir-se ao máximo dos investimentos já realizados, aproveitar as auto-estradas do mar, que ainda não requerem manutenção das infra-estruturas, melhorando os serviços de transporte de graneis e carga geral, mas principalmente o transporte de contentores, com maior frequência e mais destinos, e o transporte de camiões em sistema roll-on roll-off como já existe há muitos anos por exemplo entre Barcelona e Roma.

Comércio Português com a União Europeia em 2009 (%)

Fonte: INE

in REVISTA CARGO - Março 2011
[fonte: http://www.cargoedicoes.pt]

 

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